Total de visualizações de página

Tal qual uma matrioshka (boneca russa), vamos desvendando nossas porções. A cada novo tempo, uma nova aprendizagem. Agora é o momento de nos vermos como seres holísticos que têm: corpo, organismo, cognição (intelecto), inconsciente (desejo) e mente (consciência, espírito).

ANGELINI, Rossana Maia (2011)

“A falsa ciência cria os ateus, a verdadeira, faz o homem prostrar-se diante da divindade.”

VOLTAIRE (1694 -1778)

domingo, 22 de janeiro de 2012

TEXTO: A paixão por escrever – um olhar ancorado no Complexo de Édipo


A meu pai Renato (in memoriam) e a minha mãe, Antônia

        Você já parou para pensar por que certas coisas que fazemos exercem tanto fascínio sobre nós? Em qual lugar estão ancorados esses desejos, essas vontades de realizar algo?
        No meu caso, essa magia se dá com a escrita, uma vontade imensa de pôr no papel, de registrar o que penso, o que imagino, o que me incomoda, o que me sensibiliza, o que me irrita, o que me angustia, a minha poesia. A palavra é minha fonte de criação. Busco, então, por meio dessa ferramenta dar forma aos meus pensamentos, brincar com ela.
Desde muito cedo, dei mostras desse meu caminho: gostar de escrever e gostar de ensinar. As duas coisas se juntaram e as Letras entraram em minha vida. Sou professora apaixonada pelas relações de aprendizagem e também por escrever, talvez por isso, registro tudo que considero importante para poder compartilhar com outros esses saberes.
        Dentro da educação, a vida me levou por muitos caminhos e, dentre eles, a necessidade de compreender mais profundamente as fraturas na aprendizagem e a dor que isso causa no outro. Articulei mais um conhecimento à minha rede. A psicopedagogia capturou-me e nos enamoramos pelas questões da aprendizagem. Afinal, estamos aqui por um único motivo: aprender! Nesse tempo, as questões psicanalíticas contribuíram para meu autoconhecimento, e o quanto isso é fundamental ao ser humano – buscar se conhecer, entrar no labirinto de sua psique e navegar por mares nunca dantes navegados.
        Há algum tempo, uma professora e psicopedagoga muito especial, com quem tive o prazer de trabalhar e de estudar, entrou na minha vida. Fui privilegiada ao poder desfrutar de suas experiências e trocar conhecimentos, essencialmente, na área da Inclusão. Um dia, Celma me perguntou por que gostava tanto de escrever. Se já havia pensado no porquê desse desejo, de pôr no papel as coisas que pensava e que criava e por que contagiava tanto as pessoas para descobrirem sua autoria, sua escrita. Lá nasceu Buquê – Aroma de Poesia – poesias criadas pelos alunos da escola TRILHA.
        Recordo-me que, naquele momento, não pude responder, mas essa pergunta me acompanhou em muitos momentos de minha auto-análise, de minha terapia, enfim... Faltava responder a essa questão. Hoje, depois de tanto tempo, levando meus alunos ao prazer por escrever, por criar, precisei compreender melhor esse movimento que exala de minha ação enquanto professora, para responder. Levantei algumas hipóteses, no entanto, nenhuma era tão convincente. Precisei, então, fazer uma viagem à pré-história de minha escrita (Incrível, isso! Material psicanalítico com que trabalho com meus alunos na psicopedagogia e na pedagogia, na área da construção dos processos de leitura e de escrita). Comecei o processo de rastreamento, voltei no tempo. Precisava compreender, de fato, o amor que me levou a essa construção, na verdade, mais do que amor, uma necessidade, assim como respirar.
Lá fomos nós, eu e minha criança que precisava ser resgatada, para me acompanhar nessa valiosa missão. Freud foi meu grande mestre nesse percurso. Comecei a pensar e flashs de um tempo de criança, começaram a brotar em sensações, cheiros, as idiossincrasias! Algumas imagens... Voltei no tempo, e pude me deparar com uma mãe muito zelosa, simples, muito acolhedora, brincava comigo e era dona de uma autoria incrível. Logo, no início dos anos 60. Lembro-me sentada no chão, brincando com letras, minha mãe cozinhando e eu por ali, recortando letras de meu nome, colando em uma folha, formando novas palavras. Tudo parecia ser muito mágico! Minha mãe me elogiava e me incentivava nessa construção das letras, das palavras que brotavam no chão. Logo, aprendi ler e escrever, brincando, num “espaço de confiança” criado com muito carinho e cumplicidade. Winnicott estava certo, a “mãe suficientemente boa” faz uma grande diferença na vida emocional do filho.
Entrei no grupo escolar com sete anos completos e fui contente contar à professora que já sabia ler e escrever. Sua resposta foi um tanto frustrante para a menina: “Agora, você vai aprender ler e escrever aqui, na escola...” Caminho Suave foi, então, o caminho a seguir... Fazer o quê?! Década de 60.
Parecia ter encontrado a resposta à pergunta da Celma, entretanto, algo faltava, não era bem isso que me levava à paixão por escrever. O trabalho de minha mãe foi maravilhoso, mas faltava algo. Lembro- me da imagem de meu pai vindo a todo instante nessa história. Pois, quando sentada ao chão brincando, observava meu pai em uma poltrona. Voltei para mais perto e pude vê-lo lendo seu jornal diário, após o jantar. Veio uma sensação de admiração, de amor. Tudo estava harmonioso e o mundo era perfeito!
Voltei mais um pouco para poder responder a pergunta inicial. Novo flash, minha criança surpreendeu-me, com um olhar aguçado, lembrou-me da letra de meu pai. Se havia algum referencial de escrita e de letra bonita em casa, era a do meu pai!  No entanto, o que me capturava em relação à escrita de meu pai, era sua letra bonita, sim, mas havia algo especial. Aos poucos, fui me dando conta, sua escrita era de amor, amor pela minha mãe, o que ficava registrado em belíssimos cartões que ele escrevia, declarando-se a ela (a mim?). Sua escrita era a expressão do amor! Assim, entrei nesse mundo mágico que a escrita me ofereceu. Queria ser como meu pai: escrever e expressar meu amor pela escrita. Foi o que aconteceu durante muitos anos, na casa com meus pais, passei a escrever os cartões de aniversários, bem como as cartas a parentes e aos amigos. Era fascinante! Queria ser escritora! Ah! Freud!
Minha escrita nasceu do amor e eu havia nascido do amor de ambos. Tudo começou a fazer sentido e minha admiração por meu pai era crescente. Até sua assinatura foi inspiração para a minha, quanto o imitei! Uma maneira de sentir-me admirada por ele.
Minha criança foi investida de muito desejo, de amor. Ela pôde perceber um pai com qualidades que a ajudaram a se estruturar nesse mundo. Freud foi pontual! O Complexo de Édipo traz muitas explicações e/ou implicações sobre nossa pré-história e como é importante navegar por essa história, para que possamos crescer e compreender onde nascem nossos desejos, nossas vontades, nossas fraturas, muitos ancorados em nossa vida pré-natal, na nossa pele, em nosso inconsciente.
O tempo passou, minha escrita ganhou vôos – esteve, a todo tempo, sustentada pelo amor. O Édipo entrou em cena – o amor por meu pai levou-me a construir a vida de forma serena e ética, sentia-me amada e quis presenteá-lo com o que mais admirava nele: sua escrita. Hoje, escrevo diferentes textos acadêmicos, literários, poéticos inspirados pelo amor. Agora posso responder à pergunta da Celma, e entender o texto que uma de minhas alunas me escreveu, ao qual denominou Guardador de palavras:
“Tem muitos jeitos de escrever por aí...
Antigamente, os homens escreviam por desenhos gravados na pedra. Imaginem só como era difícil escrever, mas mesmo assim, escreviam. Hoje, com o incentivo e o desejo da professora Rossana de tornar que seus alunos sejam autores de suas próprias palavras escritas, estou aqui, então, a escrever meu primeiro livro. Não há quem fique perto de Rossana e não seja contagiado pelo desejo de ler e de escrever. É só começarmos a fazer como os grandes autores, que de tudo escrevem! Foi assim que juntando as palavras, uma a uma, consegui escrever a minha história. Para mim, o livro é um guardador de palavras, dos melhores que já se inventou. Quantas coisas dizem, e depois nos esquecemos! Se escrevêssemos tudo, quantos guardadores já teríamos. Foi maravilhoso ter escrito meu primeiro livro.” (Patrícia, 2011)
Agradeço aos Anjos por iluminarem meu caminho e me possibilitarem compartilhar essa paixão: a construção da escrita - com quem passa por mim.

Obrigada, Celma Cenamo!
(in memorian)

2 comentários:

  1. ROSSANA QUERIDA, COM ESSE TEXTO VOCÊ SE SUPEROU NA ARTE DE ESCREVER, VEIO TRAZENDO A INTENÇÃO PERMEADA DE UMA PROFUNDA EMOÇÃO DE SUAS VIVÊNCIAS ENVOLVENTES QUE ACARICIARAM SEU CORAÇÃO NA ÂNSIA DE TRANSMITIR,"como seu pai"O AMOR PELO QUAL VOCÊ FOI PREMIADA. A FORÇA DESSE SENTIMENTO FICA CLARAMENTE DEMONSTRADA TANTO NA SUA CONSTRUÇÃO PESSOAL QUANTO NA TRAJETÓRIA DE SUA ATUAÇÃO COM SEUS ALUNOS. COISA RARA, VOCÊ É RARA, POIS TEM SENTIMENTO REFINADOS COM OS QUAIS NÃO TEMOS MUITA CHANCE DE CONVIVER COM RAZOÁVEL FREQUENCIA. TEXTO PROFUNDO SINGELO E DOCE RETRATANDO VOCÊ NA SUA ESSÊNCIA. LUCILA

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, querida, Lucila por seu carinho. Como é importante navegar em nosso labirinto, somente assim para nos conhecermos e melhorarmos como seres humanos. BJS!!

    ResponderExcluir