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Tal qual uma matrioshka (boneca russa), vamos desvendando nossas porções. A cada novo tempo, uma nova aprendizagem. Agora é o momento de nos vermos como seres holísticos que têm: corpo, organismo, cognição (intelecto), inconsciente (desejo) e mente (consciência, espírito).

ANGELINI, Rossana Maia (2011)

“A falsa ciência cria os ateus, a verdadeira, faz o homem prostrar-se diante da divindade.”

VOLTAIRE (1694 -1778)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Texto para reflexão: Educadores, Pais e Filhos


A Dor do Segredo

O segredo queima a alma,
 e na sua explosão os ferimentos deixa.

Angelini, Rossana, 2011


        Navegamos já há uma década, no século XXI – uma nova proposta em relação à vida se constrói: buscamos a tolerância, a compreensão, o diálogo, a verdade, a inclusão e uma ética pautada no desenvolvimento da consciência, da espiritualidade. Parece-nos que, na atual sociedade, nada mais fica “embaixo do tapete”. Em algum momento, a verdade vem à tona, o segredo brota, e as feridas que deixa são difíceis de cicatrizar.
        Ocultar a verdade, mentir, esconder, segredar é um movimento que está na conduta humana e se aprende por meio das mais “ingênuas” atitudes, como: aquela pessoa “indesejada?” que liga, e você pede ao filho para dizer que não está ou algo assim. Ingênua cena, não?! À primeira vista, sim. Entretanto, é dessa forma que vai se estruturando um tipo de modalidade de aprendizagem, um tipo de comportamento, na criança. De acordo com DOLTO (1999), psicanalista francesa, tudo é linguagem: “Para uma criança, tudo é linguagem significativa, tudo o que se passa à sua volta e que ela observa. Ela reflete sobre as coisas”.
        Os pais sãos os ensinantes de seus filhos, autorizados por eles, por isso ser tão importante que os pais reflitam sobre sua modalidade de aprendentes e ensinantes. Alícia Fernández, psicopedagoga argentina, aponta-nos que muitas das dificuldades de aprendizagem ocorrem por três modalidades construídas pelos pais. Temos aqueles pais que se colocam na relação com a criança como adivinho, não deixam a criança contar o que aprendeu, como aprendeu, desprezando sua experiência, tão singular. Os pais exibem um saber que “cala” o da criança. Outra modalidade é dos pais detetives, que não possibilitam o movimento da criança se colocar no lugar do ensinante. A criança fica na posição de delatora sobre o que acontece na sala de aula. Os pais desconfiam de tudo na escola e a criança permanece no lugar do delator, o que se aprende pode ser visto como delação. A terceira modalidade que se torna um perigo é o da indiferença, ocorre uma falta de interesse por aquilo que a criança faz na escola; não há interesse pelas experiências do filho, os pais não têm tempo para ouvir a criança.
        Assim, vamos construindo modalidades e aprendendo a mentir, a ocultar a verdade, a guardar um segredo e seu “peso”, desde a infância. Ocultar a verdade para não deixar o outro sofrer (suposição nossa), uma armadilha que nos coloca na posição de reféns do segredo, da mentira que vem agregada.
         Você já parou para pensar o quanto um segredo pode ser perigoso e como ele atravessa nossas relações com a família, com a escola, com a sociedade, deixando profundas marcas. Dentre os problemas de aprendizagem que buscamos resolver na clínica psicopedagógica, muitos estão permeados pelo “escondido”, por um segredo. Pode não parecer, mas esse movimento é extremamente maléfico ao sujeito da aprendizagem, gera uma modalidade, em que o aprender não pode ser mostrado, o que se torna angustiante, pois pode estruturar uma dificuldade de aprendizagem. Por exemplo, uma criança adotada, percebe que é diferente dos pais. Se os pais “esconderem” a adoção, a criança passa a carregar algo que não pode revelar. Isso pode gerar insegurança, sofrimento. Constrói um movimento de não mostrar o que sabe e isso a obriga a esconder algo essencial da sua vida.
Nessa relação com o “segredo” aparecem dois aspectos que ajudam a dificultar a sua aprendizagem: a culpa por saber e a vergonha pelo segredo. Na situação escolar, essa criança, detentora de um segredo, poderá desenvolver uma modalidade de aprendizagem em que esconde o saber, o que pode causar dor e uma sensação de fracasso, de exclusão.
        O segredo, a falta da verdade nos trai em algum momento...
        Uma pedra ao ser jogada nas profundezas de um lago, cai só. O lago a recebe em seu interior, ocultando-a, entretanto quem a joga sabe que está lá, nas profundezas. A pedra não existe mais nas mãos de quem a jogou, contudo, a pessoa sabe que está lá, submersa, latente naquele lago silencioso, gritante...
        É diferente, quando jogada ao mar, com certeza, voltará brevemente à superfície e denunciar o que ocorreu. O mar é revolto, o lago é sereno, profundo...
        Nós, seres humanos, temos momentos de lago, profundo, e momentos de mar – revolto. O mar leva e devolve transformado aquilo que vem de seu interior. Já o lago oculta, não devolve, segura, mesmo que lhe cause dor.
        Assim, somos nós perante um segredo, de acordo com os momentos que vivemos, acionamos nosso temperamento e revelamos aquilo que nos angustia, que nos reprime ou, às vezes, escondemos o que nos cala, dolorosamente, até a morte. O segredo leva-nos fatalmente ao escondido, à mentira, ao fracasso.
        Ao ocultarmos algo de alguém, o outro torna-se o denunciante  potencial daquilo que está sendo ocultado, olvidado nas profundezas de nosso labirinto psíquico. Por isso muitas vezes, precisamos esquecer de muita coisa, guardamos para dar conta de viver a vida e amenizar o sofrimento. Será?
        Somente a verdade liberta os “monstros” que alimentamos e guardamos a sete chaves, de forma dolorosa, pois estão lá, submersos... Muitas pessoas pensam que o segredo é o único caminho para se manter uma relação. Pode-se manter, sim, uma relação, mas saudável? O segredo patologiza, adoece!
        Libertar o segredo, é libertar o monstruoso medo que guardamos. É preciso ter coragem de acreditar na verdade que ilumina nossas vidas e ter confiança.
        Dessa forma, aquilo que ocultamos é criado em nossa mente, alimentado de tal forma que se torna um monstro em potencial. Podemos dizer que o segredo paira e ronda o ambiente em que vivemos, as relações que estabelecemos, como uma sombra. O segredo torna-se uma entidade que vai paulatinamente consumindo, magoando e deprimindo quem o mantém.
Com frequência, o segredo pode ser revelado de forma arrebatadora, visto que ilude e engana o outro. O autor do segredo convive com a dor de segredar e a denúncia está sempre presente ao entrar em contato com aquele de quem o segredo se faz. O outro, que deveria saber da verdade é, então, o denunciante ingênuo, potencial, daquele que esconde.
Assim, cultiva-se a dor, o segredo vai corroendo a relação e construindo um enorme muro energético negativo que causa a separação em nível inconsciente e espiritual dos envolvidos. Entra em jogo outro aspecto, tão pernicioso que se torna uma entidade perversa – a culpa.
O segredo, a verdade ocultada, o não revelado, como já vimos, guarda em seu interior a traição e, simultaneamente, a culpa. A culpa de não poder dizer a verdade, uma cilada inconsciente que nos leva à traição.
Dessa forma, surge a pergunta – Que relação (seja ela qual for) pode ser construída em torno de um segredo?
Viver com um segredo, é viver na penumbra, na obscuridade, numa cadeia psíquica, em que a única possibilidade de se libertar é a verdade sempre, seja qual for.

4 comentários:

  1. De fato a verdade é sempre o melhor caminho. O segredo nos faz sentir como se nossos ossos estivessem envelhecidos. A verdade liberta e traz a paz.

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  2. "O segredo patologiza, adoece!"... Talvez esse seja um dos maiores motivos da depressão e do câncer que assolam a humanidade. Parabéns pelo texto!

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  3. Tatiane e Osana

    Na verdade, o segredo nos oprime, machuca, gera sofrimento... Muito obrigada pelo retorno!

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  4. Este tema nos ajuda a avaliar as nossas relações humanas, sobretudo as relações entre pais e filhos...Uma das principais condiçoes para uma relação humana saudável e edificante é a transparência, palavra que vem sendo utilizada para falar até das relações políticas, hoje em dia...Daí a importância do assunto, que passa por todos os âmbitos da nossa sociedade. Parabéns, à Professora Rossana, pela sua sensibilidade na escolha.

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